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estes versos vieram pra te virar do avesso.

não são leitura para conforto
alegria amor
ou qualquer outro contentamento

meu verso é encantamento.

reverso da digestão fácil
meu verso é naufrágio
espaço para afogamento

meu verso é atrevimento.

é sangue
guerra
não apaziguamento

meu verso é um tormento.

magia
alteração de consciência
deslumbramento

meu verso é um encantamento

pra te virar do avesso
despir tua pele
e te trazer à tona

sangrando…
… sangrento…

meu verso é teu sepultamento!

eu sou a sombra

massa disforme
que te encobre
deglute
digere
e ao mundo te devolve

em carne viva
em gente

agora finalmente
convertido

(foto gentilmente cedida por Fabiana Mendonça)

O vazio é úmido. E cheira a terra molhada. Notou isso no escuro do apartamento quando o nariz farejou chuva na secura da cidade. Agora, na várzea, o cheiro entrava pelos poros e tudo estava igual, dentro e fora.

SOBRE O LIVRO

A poesia de glohlopes é uma interação entre técnica e sentimento. Por vezes mais sentimento do que técnica, atribuindo pele e sangue à moderna tecnocracia fria. Planejado para o formato digital, o livro namora cores e formatos que podem dificultar a impressão tradicional. Com o intuito de incentivar o lado positivo da revolução digital: a economia de árvores e dos recursos necessários para a confecção do papel, numa esperança de que caminhemos para um mundo auto-sustentável. Além disso as pequenas digressões de formato e cor constituem uma, ainda que tímida, tentativa de demonstrar as possibilidades do universo digital para a renovação da literatura, possibilidades que vêm sendo passadas e repassadas ao longo dos últimos cinqüenta anos, pelo menos. Não há a pretensão de inovar no que é apresentado artisticamente, mas a honesta busca de equilíbrio entre o tradicional e o moderno, a técnica e o sentimento, a razão e a emoção sucedem em atingir o receptor, partindo de uma experimentação quasi-lúdica. Gló escreve com mente, corpo e espirito, e toca a alma do leitor. Não é essa a finalidade última da literatura? (Laura V. Guerra)

DA POESIA

leite de pedra

poesia
é assim uma espécie de escultura
retirar da pedra à força bruta
a vida que na pedra se mistura

(na poesia entretanto
fabricar a pedra
é coisa que cabe ao próprio poeta)

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faca em cruz
à frente do peito

um único ruído
é teu lamento
as mãos sabem o gesto
e empurram
a lâmina é o ato manifesto
vermelha tortura

e quando o escuro cai sobre ti
ouves enfim a ordem infinita:

faça-se a luz!

Deve haver algo que fale da minha solidão. Em algum lugar alguém já falou disso. Mas em que livro, em que canto é que está a dor que agora procuro? Eis a dúvida. A cômica dificuldade desses dias super-informados. Tudo já foi dito. Resta saber onde, em que estante, em que página, em que faixa é que se encontra o que preciso.  

Deve haver por aí alguém gritando minha dor, esse meu coração apertado, minhas esperanças perdidas. Eis a cômica dificuldade: está tudo aí, inalcançável, perdido, inoperante, nas nuvens. Tudo se misturando, deformando, condensando, esvaziando, evaporando. Esse excesso de dados que um dia cairá sobre nós como chuva ácida.

Deve haver em algum canto algo que fale por mim. As palavras exatas, precisas para minha libertação. Mas não as encontro. Então escrevo.

Você se agarra à borda dos meus olhos com medo do mergulho. De fato, esses meus olhos verdes de águas profundas, nem sempre são seguros. São águas míticas onde cantam sereias e escondem-se monstros. Nas profundezas habitam serpentes marítimas e há um longo muro de corais. Existem, claro, perigosos rochedos aqui e ali. As águas aparentemente calmas guardam possíveis tempestades, maremotos, redemoinhos.

Mas há também ilhas paradisíacas onde vivem jovens virgens que aguardam ansiosas corajosos marujos. Nessas ilhas todo fruto e doce, todo descanso é reparador, todo amor é incondicional e livre de culpa.

Tudo isso sou eu, tudo isso lhe aguarda.

Mas você se agarra à borda e olha. Minhas águas verdes, disfarçadas de contas, lhe encaram. Você mergulhará?

Onde está o seu navio? Por que não me navega, não me doma? Enfrente meus ventos, domestique minhas águas, desvende meus mistérios. E quando, enfim, descobrir que em cada monstro há uma flor. Que cada serpente lhe aguarda para uma cavalgada. Que cada sereia lhe oferece apenas canto e harmonia. Quando descobrir que meus rochedos não machucam, se souber contorná-los, quando aprender o caminho para as ilhas e nelas construir sua casa, então nade-me. Seja-me. Assim como em paz infinita sou-te nesse exato instante.

eu digo em maio
os abris que me entardecem
agosto destes sentires
invernais

florescem setembros
logo mais

(glohlopes)

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sê bem-vinda, amada primavera :))

Hoje em dia todo mundo tem esofagite… azia constante… a insatisfação ácida e borbulhante que sobe do estômago. A correria dos tempos caóticos, o trânsito moderno, as contas, cobranças o tempo que falta, o trabalho que sobra, a solidão, as ruas lotadas…

A vida empurrada goela abaixo causando problemas digestivos… 

saudade
excesso de presença
por dentro

(para Fabi Mendonça)