Caminhar entre dois mundos é o maior desafio. A realidade é, a cada dia, uma linha mais tênue. A vara pesa nas mãos, o tombo parece iminente. Apenas as palavras importam. As palavras, essas sereias imateriais que hipnotizam a cabeça, sequestram a alma…
Fingir que nada está acontecendo é a melhor tática, mas nem sempre é possível. Então desfila por aí tentando fazer cara de normal. Um esforço quase sobre-humano para fazer o que é corriqueiro à maioria das gentes: concentrar-se no trabalho, ganhar com o suor o pão de cada dia. Mas há uma estória que rouba a atenção, há aquelas personagens que necessitam falar-lhe… urgente!, tem que ser agora, não dá pra esperar!
A criação não espera, é exigente. Ela quer você, ela quer agora!
A realidade não aceita, é intransigente. Ela cobra o preço, e cobra caro!
Abandonar a luta, perder-se no caos! Seria tão mais simples ceder ao desejo de uma alma encarnada com tão austera vocação… Mas não há espaço para esses caprichos no mundo. Ergue a espinha, poeta, enfrenta sua sina de dupla existência. E lembre-se que ao menos existe o consolo de poder desabafar na escrita, pois essa é a dádiva da sua substância verbal:
»» A palavra que lhe fere é a mesma que lhe cura… ««
Imagem:Roberto Weigand









